Fortalezinha esconde belezas naturais, histórias de vida e lenda da princesa encantada

A comunidade de Fortalezinha tem muito orgulho do local. Os moradores mais antigos, como o pescador aposentado Francisco da Silva, 97, não trocam o vilarejo por nenhum paraíso do mundo. Ele chegou a Fortalezinha há 59 anos, casou teve oito filhos, que por suas vezes, lhe deram 23 netos e três bisnetos. Nesta época de férias, o “Chaguinha”, como é conhecido no lugarejo, ganha a companhia de dezenas de pessoas, muitos que ele nem conhece, porém, recebe com cortesia as visitas. “É bom, a casa fica mais alegre com tanta gente. Eu gosto”, conta. Mais a ideia de deixar o local não passa pela sua cabeça. “Não saio daqui”, completa. O pescador é natural de Tutóia, no Maranhão e chegou a Fortalezinha em 1957 e não saiu mais. “Aqui não tinha casa, agora tá cheio, mas é bom porque ajuda a gente que precisa”, conta.

Separado da esposa, “Chaguinha” vive praticamente sozinho numa casa simples com vários quartos, quintal e de frente para o mar, o velho companheiro de longas jornadas de trabalho. “Eu caminho com dificuldade devido às doenças, mas agradeço a Deus por tudo e pelos meus filhos, minha família”, lembra. Sobre o lado pitoresco de Fortalezinha, “Chaguinha” conta um caso sobrenatural de uma mulher lindíssima que desfila pela orla da cidade em noites de lua cheia.

“Ela vem da praia, sobe as calçadas e fica andando por essa rua daqui e depois some. Ninguém nunca viu o rosto dela, pois ela só aparece de costas. Ela tem cabelos compridos é alta e usa sempre um vestido branco. Eu acredito que ela seja muita bonita”, conta, dizendo ainda que muitos de seus companheiros desacreditavam na lenda, até que uma noite de lua cheia a mulher apareceu sob o luar e todos puderam ver. “Ai todo mundo acreditou. Eu acho que é uma princesa encantada do mar”, completou.

Casos assim são comuns em lugarejos como Fortalezinha. A comunidade é muito pequena, as ruas são cobertas por um gramado, que nesta época do ano perde o verde devido à falta de chuvas. A coleta de lixo é feito em carroças puxadas por cavalos e depositado à frente da cidade para ser embarcado para a Vila de Mocooca, onde a prefeitura de Maracanã dá destinação final. Os moradores têm consciência da necessidade de preservação ambiental, porém, cobram do poder público maiores condições ou alternativas que garantam a sobrevivência.

Atualmente, a pesca ainda representa o ganha-pão das famílias de Fortalezinha. Segundo Janon Teixeira, filho de “Chaguinha”, o local precisa de outras fontes de renda para as famílias mais pobres. “Não adianta só a preservação é necessário uma ação de geração de emprego e renda”, analisa. “Esse evento da Secretaria de Esporte já é um bom começo”, completa.

Vida – O vilarejo de Fortalezinha também guarda uma personagem que anda meio esquecida nos dias atuais: a parteira. Dona Conceição Modesto, 81, já foi muito atuante, hoje ela diz que as mulheres “preferem se cortar toda” ao optar pelo parto normal. “Eu tive 12 filhos tudo de parto normal e nunca me arrependi”, recorda. Dona Conceição começou a missão assistindo as próprias filhas. “Eu tinha que fazer, pois não havia outro recurso. Tinha gente que vinha de longe me chamar para assistir uma mulher com dor para ter criança, mas hoje, a maioria das mulheres, muitas ainda meninas, não quer ouvir falar da parteira”, lamenta.

Dona Conceição já perdeu a conta de quantas crianças ajudou a colocar no mundo. “Eu não me lembro, sei que foram muitos, acho que mais de cem”, recorda. Há muitos anos sem realizar nenhum parto, dona Conceição Modesto garante que ainda tem condições físicas e emocionais para assistir uma grávida. “Coragem não me falta, se vierem me procurar eu vou”, garante. Para induzir e apressar as dores do parto, dona Conceição recomenda o uso de chás de ervas medicinais. “A mulher também tem que fazer uma alimentação saudável, feita diariamente e sem temperos da indústria”, ensina.

Assim como o aposentado Francisco da Silva, dona Conceição Modesto não pretende sair de Fortalezinha. “Não saio daqui. Minhas filhas me convidam, mas eu não vou. Sou viúva e prefiro ficar na minha casa, que meu marido construiu com muito carinho. Aqui eu vivo do meu jeito com meu filho que é pescador”, disse. Dona Conceição vive numa casa grande cercada de plantas e de recordações de época passada, quando o marido era vivo e os filhos eram pequenos. “Tempos maravilhosos, que eu e meu marido criamos nossos filhos”, completa.