Jogos Tradicionais mostram integração de indígenas com a tecnologia

Com uma câmera na mão, o jovem Aiteti Parkatejê, 22, da etnia Gavião Parkatejê, registra todas as competições de seu povo durante os Jogos Tradicionais Indígenas, em Marudá, nordeste do Estado. Segundo ele, as imagens serão usadas em um documentário produzido e editado apenas por jovens da própria etnia. “Desde 2011, um grupo de jovens da nossa aldeia vem documentando, por meio de fotos e vídeos, todas as tradições do nosso povo. A ideia é não deixar morrer a nossa cultura e fazer com que a história da nossa aldeia, que antes era contada apenas de forma verbal, agora seja registrada e documentada para as novas gerações usando os novos meios de informação”, afirma o jovem.

Com tablets, celulares, câmeras fotográficas e notebooks, indígenas das 15 etnias participantes registram e compartilham cada momento vivido durante o evento. Dentro e fora da arena de competição, é visível a integração dos povos tradicionais com o uso dos recursos tecnológicos. “Mesmo com todo o avanço da tecnologia, muita gente ainda se assusta quando vê o nosso povo utilizando esses recursos. O que é um verdadeiro desconhecimento, pois o uso desses novos meios em nenhum momento prejudica as nossas tradições. Muito pelo contrário, além de servir como veículo de informação, temos a tecnologia como grande aliada, pois com ela podemos expor nossas opiniões e divulgar nossos cotidianos muito além da aldeia”, conta o jovem Japirktire Parkatejê, 25 anos, da etnia Gavião Parkatejê.

Em um infocentro montado pela Empresa de Processamento de Dados do Estado do Pará (Prodepa), próximo à arena de competições do evento, Janaui Pataxó, da etnia Pataxó, da Bahia, atualiza as informações sobre os jogos em tempo real, enviando fotos e comentários em uma rede social. “A internet facilita o contato do nosso povo com diversas etnias espalhadas pelo país. Por isso, a minha preocupação em utilizar esse meio para ecoar cada vez mais a nossa mensagem e com isso manter nossas tradições”, afirma o indígena.

Para a antropóloga Jane Beltrão, da Universidade Federal do Pará (UFPA), o contato do povo indígena com as novas tecnologias dá visibilidade às tradições locais e reforça a identidade da etnia. “Essa mudança não atinge a identidade. Porque diferente de outras vulnerabilidades, a marca étnica não se apaga. O confronto com outros grupos reforça essa identidade. Embora em alguns momentos os conflitos sejam tão grandes e se acirrem que as pessoas precisem ocultar ou silenciar essa identidade. Mas não há uma perda”, explica.

Paralelo à programação esportiva dos jogos, uma oficina de fotografia e audiovisual, promovida pelo projeto Biizu, da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), reúne 21 indígenas de diferentes etnias, que juntos aprendem como usar esses recursos para manter vivas as tradições locais.  “O audiovisual é uma das principais ferramentas que permitem manter viva a cultura desses povos que nós chamamos de tradicionais. Com a ajuda desses recursos, as etnias passam a ser protagonistas da sua própria história, e consequentemente, passam a não depender do olhar de um não indígena para contar sua tradições”, afirma o documentarista Gilberto Mendonça, ministrante da oficina de audiovisual do Biizu.

Texto: Adison Ferrera – Agência Pará de Notícias
Fotos: Sidney Oliveira – Agência Pará de Notícias